domingo, 31 de janeiro de 2010
Infindas horas de aflitiva espera,
A mim, que ao pé de ti viver quisera,
A ti, que ao pé de mim ditosa foras.
P'lo contrário, a existência tem demoras,
Um vagar que os amantes dilacera,
Se unidos, como ansiavam noutra era,
Sentem do tédio as garras malfeitoras.
O tempo assim concede, por demência,
Se unidos, como ansiavam noutra era,
Sentem do tédio as garras malfeitoras.
O tempo assim concede, por demência,
Inútil pão a sonhos já defuntos,
Negando-os aos que ardem vivos e esfomeados.
Deus do Céu! Por justiça e por clemência,
Negando-os aos que ardem vivos e esfomeados.
Deus do Céu! Por justiça e por clemência,
Separa os desavindos, que estão juntos,
E junta os que se adoram separados.
E junta os que se adoram separados.
Eugénio de Castro
sábado, 30 de janeiro de 2010
Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena,
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali, ou a criada.
A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co’a doce voz que o ar serena:
– "Sumiu-se-lhe um colchão, é forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada..."
– "Tu respondes-me assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?" E dizendo isto,
Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...
Nicolau Tolentino de Almeida
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Somos um bando
De passarinhos;
Vimos agora
Dos nossos ninhos.
Asas sem penas,
Pobres de nós!
Olhos sem brilho,
Línguas sem voz.
Olhos bondosos
Do mestre-escola,
Fartai os nossos
Da vossa esmola.
Dai-nos abrigo
No coração;
Dai-nos o trigo
Do vosso pão.
Pão de ventura,
Pão de riqueza,
Manjar de beijos
Na nossa mesa.
Farinha rara,
De estimação,
Tem o fermento
Do coração.
Portais da escola,
Dai arribada
Às cotovias
Da madrugada.
Asas sem jeito,
Línguas sem voz,
Almas ceguinhas,
Pobres de nós!
Adolfo Portela
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Mon esquif s'est échoué au rivage de ta peau
Naufragé volontaire sur une île oubliée
J'ai foulé ce pays sur la pointe du coeur
Mon regard s'est ouvert sur des vallées nacrées
J'ai touché de mes mains, terre de douceur
Je me suis enivré des parfums les plus hauts
Dans son coeur de verdure, j'ai découvert l'Eden
Des torrents de douceur nés de sources de miel
Des forêts de tendresse aux arbres majestueux
Des oiseaux de légende aux couleurs arc-en-ciel
Fruits gorgés de soleil aux nectars capiteux
Au milieu de l'atoll, le palais d'une Reine.
Tout en haut du volcan, un coeur ne battait plus
Je l'ai pris contre moi pour le gonfler d'amour
Je l'ai serré si fort qu'il est entré en moi
Il s'est fondu au mien et revit au grand jour
Je vivrai pour toujours dans ce pays de rois
J'ai fini mon voyage, je ne partirai plus
Thierry Grandcamp
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Graças Vos dou por todo o amor,
Pelo céu, pela terra mil graças Vou dou, Senhor.
Senhor, graças pelo calor do sol,
Graças pelo fragor do mar,
Pela neve do monte onde o vento passa a cantar.
Graças pelo fragor do mar,
Pela neve do monte onde o vento passa a cantar.
Senhor, graças pelo trigo a crescer,
Graças pela vida a nascer,
Graças pelo que a minha alma sente e Vos quer dizer.
Graças pela vida a nascer,
Graças pelo que a minha alma sente e Vos quer dizer.
Senhor, graças por esta refeição,
Por este Vinho e este Pão,
E por todos os homens de quem nós somos irmãos.
Por este Vinho e este Pão,
E por todos os homens de quem nós somos irmãos.
Senhor, graças por este belo dia!
Vamos viver como cristãos
Ajudai-nos a amar-vos e a todos como irmãos.
Vamos viver como cristãos
Ajudai-nos a amar-vos e a todos como irmãos.
Lá vai ela, lá vai ela!
A borboleta no ar!
Lá vai ela, como é bela!
Lá vai ela, lá vai ela!
É uma flor a voar!
A borboleta voadora,
Borboleta fugidia,
Às vezes só vive um dia,
E às vezes só uma hora,
Mas que hora de alegria!
Lá vai ela, lá vai ela!
A borboleta no ar!
Lá vai ela, como é bela!
Lá vai ela, lá vai ela!
É uma flor a voar!
São as rosas seus amores,
E lá anda p'lo jardim;
Ai viver com ela, assim,
Com o sol e com as flores,
Quem me dera a mim, a mim!
Lá vai ela, lá vai ela!
A borboleta no ar!
Lá vai ela, como é bela!
Lá vai ela, lá vai ela!
É uma flor a voar!
Afonso Lopes Vieira
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
domingo, 24 de janeiro de 2010
Naquele tempo, numa barca, um dia,
Jesus, cansado, tinha adormecido;
Levanta-se o mar, enfurecido
Pelo rijo soprar da ventania.
Remavam os discípulos, sem guia,
No pequeno batel quase perdido,
E, cheios dum terror indefinido,
Acordaram o Mestre, que dormia.
Ergueu-se e disse às vagas sem tardança:
– «Aquietai-vos!» – e logo houve bonança.
– «Que temeis? – aos discípulos volveu,
– Homens de pouca fé!...» – E eles quedaram...
– «Quem será este Homem – murmuraram –
A quem a tempestade obedeceu?».
Maria de Carvalho
sábado, 23 de janeiro de 2010
Tinha a menina Loló
Uma sábia bonequita:
Aquilo, bastava só
Puxar a gente uma guita
Que lhe pendia por trás,
sob o vestido de lã,
Para abrir a boca e zás!
Dizer papá e mamã!
Ora a Loló também tinha
Uma gata (era maltesa).
Essa, porém, coitadinha,
Era muda, com certeza.
Miava apenas; mais nada.
De maneira que a pequena
Andava desanimada,
até chorava com pena!
Um dia pensou: «Talvez
A doença tenha cura...».
(A doença era a mudez
Da citada criatura).
Se o mesmo fizer à gata
Que à mona, quem sabe lá
Se a língua se lhe desata
E diz mamã e papá.
Dito e feito. A pequerrucha,
Quando a bichana dormia,
Puxou-lhe a cauda gorducha:
Dois saltos fenomenais,
Uma forte arranhadela.
E... quem chamou pelos pais
Não foi a gata, – foi ela!
Desde então Loló, se passa
Ao pé dum gato ou dum cão,
Não lhe toca nem por graça,
Pois lhe serviu de lição.
Não compreende, porém,
Qual venha a ser, afinal,
A serventia que tem
A cauda dum animal...
Acácio de Paiva
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Fernando Pessoa
Tudo se muda: o génio unicamente
Em ser constante nos mortais porfia,
Connosco a vir ao mundo principia,
Connosco morre, e nunca se desmente.
Ele as paixões na idade mais florente,
Ele as acende na velhice fria:
É sempre o mesmo, e em nada se varia
Por mais que à vida a duração se aumente.
Dissimula-se sim, mas qualquer hora,
Apesar da mais rígida cautela,
Nos entrega cruel, e as faces cora.
Assim o antigo ardor, que me atropela,
Assim me incita, ó Nize, a que inda agora
Te adore amante, e te celebre bela.
Abade de Jazente
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Poesias de Paulino Cabral de Vasconcelos,
Vol. I
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Ce soir au clair de lune
j'écrirai quelques vers à l'élue de mon coeur.
Je parlerai à coeur ouvert de la grandeur de mon amour
et de la puissance de ma passion.
Je parlerai de la pureté de mes sentiments
et de l'immensité de mes rêves infinis.
Je parlerai de mes joies et tristesses perpétuelles.
Je parlerai de mes ennuis et désirs.
Ce soir au clair de lune
j'écrirai quelques vers à l'élue de mon coeur.
Je chanterai les beautés de ma princesse et
laisserai mon âme jubiler à sa pensée.
Oh que j'aime cette femme! Oui que j'aime cette femme!
Cette femme aux six mille charmes et splendeurs,
qui me fait rêver même en état de veille.
Je lui avouerai mon amour tout entier
et mes sentiments de feu.
Je prendrai mon coeur et le déposerai
entre ses mains de velours,
juste pour lui dire que c'est elle que mon âme a choisie
et que c'est elle l'élue de mon coeur.
Ce soir au clair de lune
j'écrirai quelques vers à l'élue de mon coeur.
Mamadou Sall
1
Antre Sintra, a mui prezada,
e serra de Ribatejo
que Arrábeda é chamada,
perto donde o rio Tejo
se mete n'água salgada,
houve um pastor e pastora,
que com tanto amor se amarom
como males lhe causarom
este bem, que nunca fora,
pois foi o que não cuidarom.
2
A ela chamavam Maria
e ao pastor Crisfal,
ao qual, de dia em dia,
o bem se tornou em mal,
que ele tam mal merecia.
Sendo de pouca idade,
não se ver tanto sentiam
que o dia que não se viam,
se via na saudade
o que ambos se queriam.
...
Cristóvão Falcão
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Peindre d'abord une cage
avec une porte ouverte
peindre ensuite
quelque chose de joli
quelque chose de simple
quelque chose de beau
quelque chose d'utile
pour l'oiseau
placer ensuite la toile contre un arbre
dans un jardin
dans un bois
ou dans une forêt
se cacher derrière l'arbre
sans rien dire
sans bouger...
Parfois l'oiseau arrive vite
mais il peut aussi bien mettre de longues années
avant de se décider
Ne pas se décourager
attendre
attendre s'il le faut pendant des années
la vitesse ou la lenteur de l'arrivée de l'oiseau
n'ayant aucun rapport
avec la réussite du tableau
Quand l'oiseau arrive
s'il arrive
observer le plus profond silence
attendre que l'oiseau entre dans la cage
et quand il est entré
fermer doucement la porte avec le pinceau
puis
effacer un à un tous les barreaux
en ayant soin de ne toucher aucune des plumes de l'oiseau
Faire ensuite le portrait de l'arbre
en choisissant la plus belle de ses branches
pour l'oiseau
peindre aussi le vert feuillage et la fraîcheur du vent
la poussière du soleil
et le bruit des bêtes de l'herbe dans la chaleur de l'été
et puis attendre que l'oiseau se décide à chanter
Si l'oiseau ne chante pas
c'est mauvais signe
signe que le tableau est mauvais
mais s'il chante c'est bon signe
signe que vous pouvez signer
Alors vous arrachez tout doucement
une des plumes de l'oiseau
et vous écrivez votre nom dans un coin du tableau.
Jacques Prévert
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Pour Faire le Portrait d'un Oiseau
domingo, 17 de janeiro de 2010
Par les soirs bleus d'été, j'irai dans les sentiers,
Picoté par les blés, fouler l'herbe menue:
Rêveur, j'en sentirai la fraîcheur à mes pieds.
Je laisserai le vent baigner ma tête nue.
Je ne parlerai pas, je ne penserai rien:
Mais l'amour infini me montera dans l'âme,
Et j'irai loin, bien loin, comme un bohémien,
Par la Nature, - heureux comme avec une femme.
Arthur Rimbaud
sábado, 16 de janeiro de 2010
Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire
Cette rose ne l'interromps
Qu'à verser un silence pire
Jamais de chants ne lancent prompts
Le scintillement du sourire
Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire
Muet muet entre les ronds
Sylphe dans la pourpre d'empire
Un baiser flambant se déchire
Jusqu'aux pointes des ailerons
Si tu veux nous nous aimerons.
Stéphane Mallarmé
J'ai dans mon coeur, dont tout voile s'écarte,
Deux bancs d'ivoire, une table en cristal,
Où sont assis, tenant chacun leur carte,
Ton faux amour et mon amour loyal.
J'ai dans mon coeur, dans mon coeur diaphane,
Ton nom chéri qu'enferme un coffret d'or;
Prends-en la clef, car nulle main profane
Ne doit l'ouvrir ni ne l'ouvrit encor.
Fouille mon coeur, ce coeur que tu dédaignes
Et qui pourtant n'est peuplé que de toi,
Et tu verras, mon amour, que tu règnes
Sur un pays dont nul homme n'est roi!
Théophile Gautier
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
vai a distância de uma camisa branca
Entre o pássaro e a bandeira
vai a distância dum relógio solar
Entre a janela e o canto do lobo
vai a distância dum lago desesperado
Entre mim e a bola de bilhar
vai a distância dum sexo fulgurante
Qualquer pedaço de floresta ou tempestade
pode ser a distância
entre os teus braços fechados em si mesmos
e a noite encontrada para além do grito das panteras
qualquer grito de pantera
pode ser a distância
entre os teus passos
e o caminho em que eles se desfazem lentamente
Qualquer caminho
pode ser a distância
entre tu e eu
Qualquer distância
entre tu e eu
é a única e magnífica existência
do nosso amor que se devora sorrindo
Mário Henrique Leiria
terça-feira, 12 de janeiro de 2010
Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.
Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.
— «Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!»
— Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— «Por que voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?» — Nesse momento.
Volta-se o Amor e diz com azedume:
— «Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!»
António Feijó
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
domingo, 10 de janeiro de 2010
sábado, 9 de janeiro de 2010
Nas águas negras do rio
Bate o luar de Janeiro:
Nascem luzinhas na água,
Num ferver de formigueiro.
Nascem nas águas montinhos
Do pó d'oiro, luzidio,
Como se um caruncho d'oiro
Tivesse dado no rio.
Parece que um anjo doido,
Sobre a água pasmadinha,
Anda a esfolhar os diamantes
Da c'roa duma rainha.
Tal ferver de luz acorda
As aves adormecidas,
Que, despertando, supõem
Voltar d'outras altas vidas.
De ramo em ramo saltando,
Uma à outra se interpela:
- "Que fogo incendeia o rio?"
- "Que forja será aquela?"
Volve um tordo rechonchudo
Para os outros passarinhos:
- "Caiu do céu uma estrela,
"E partiu-se aos bocadinhos..."
- "Mentes, tordo!" um pardal diz
Com real severidade:
"Tu dormias, nada viste,
"Eu é que sei a verdade.
"Eu, que tenho o sono leve,
"Acordei há meia hora,
"Vendo com olhos de espanto
"A Virgem Nossa Senhora.
"Nossa Senhora viera,
"Por trilhos de benta luz,
"Fazer compras para a ceia
"De São José e Jesus;
"Mas ao voltar ao presépio,
"Por sobre as águas do rio,
"Apesar de Mãe de Deus,
"Escorregou e... caiu!
"Um braço erguendo na queda,
"Salvou a infusa com leite,
"Mas quebrou em mil pedaços
"A outra de loiro azeite.
"É pois azeite entornado
"O oiro que na água luz,
"Chorando por não doirar
"O caldinho de Jesus..."
Eugénio de Castro
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Cravos de Papel O Luar nas Águas do Rio
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